Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

  • 2.jpg
  • 6.jpg
  • 10.jpg
  • 7.jpg
  • 5.jpg
  • 3.jpg
  • 1.jpg
  • 9.jpg
  • 4.jpg
  • 8.jpg
O bispo de Barra, dom Luiz Flávio Cappio, encaminha hoje ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma carta de protesto redigida durante o Carnaval, contra a retomada do projeto de transposição do Rio São Francisco.

O religioso – que embarcou ontem para o Distrito Federal – fez, em 2005, a greve de fome que barrou a primeira tentativa do presidente Lula de fazer transposição.

Antes de entregar o documento, dom Cappio concede entrevista na Cúria Diocesana Metropolitana, às 10h, quando explicará o conteúdo da carta. Dirigentes da Pastoral da Terra vão participar do ato.

O texto deverá conter críticas fortes ao comportamento do governo federal frente à insatisfação social contra a transposição. Está confirmado ainda que o bispo vai pedir a retomada do diálogo. O religioso observará que setores do Executivo federal não apontam a obra como alternativa para acabar com a falta de água no sertão nordestino. Um exemplo que será citado é o Atlas das águas, lançado recentemente pela Agência Nacional de Águas (ANA).

Há 32 anos com militância religiosa no município de Barra, dom Luiz Flávio Cappio ficou dez dias sem comer entre setembro e outubro de 2005. O religioso ficou instalado numa capela em Cabrobó, no semi-árido nordestino. Nesse período, dom Cappio continuou rezando missas e recebeu solidariedades de populares, da CNBB, ministério público, governo baiano e um sem número de peregrinos da região ribeirinha.

"Eu estou acompanhando o penar do São Francisco diariamente. Não poderia concordar com essa transposição", ponderava, frente a um iminente risco de as obras começarem. O religioso decidiu por fim à greve de fome por concluir que o ato teria surtido o efeito.

Logo após a greve de fome, o debate do Ministério da Integração Nacional, responsável pela execução do projeto, com a sociedade, foi assegurado pelo então ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner.

Dois encontros foram promovidos, que trataram do projeto polêmico, da revitalização do rio e de formas de convivência com a seca. Durante a campanha política e após as eleições, nada mais aconteceu.

Para dom Cappio, "não há condições técnicas nem ambientais de se levar a transposição adiante".

O religioso considera o início das obras o descumprimento do compromisso firmado pelo presidente Lula com ele, por intermédio do então ministro Jaques Wagner, que já se declarou favorável à obra.

Por sua vez, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, declarou, no começo do mês, em Salvador, que, para o governo federal, o diálogo com a sociedade "foi levado até o limite".

Dom Cappio advertiu que voltaria a protestar caso não fosse cumprida a promessa de dialogar com a sociedade antes do início de qualquer intervenção.

"Eu honro a minha palavra e quero que eles honrem a deles", disse.

"Volto para o canteiro de obra e dessa vez não mais sozinho, mas com toda a nação (de índios) Truka e milhares de pessoas", afirmou. A tribo Truká está na região por onde o governo federal pretende iniciar a obra.

Nova greve de fome está descartada, mas o bispo promete uma intensa mobilização social para evitar a concretização do projeto.

Dom Cappio revela que a mobilização na região da bacia pela retomada do diálogo é intensa.

Durante o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o ministro da Integração Nacional, Pedro Brito, marcou para fevereiro o início das obras.

Só não cumpriu a promessa – que foi recebida pela população da bacia como ameaça – porque o Ibama não liberou a licença de instalação. No dia 15 deste mês, a Procuradoria Geral da República entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) visando embargar o projeto.

Além do ato em Brasília, dom Cappio espera sensibilizar o governador baiano, Jaques Wagner, que é favorável ao projeto de transposição, apesar de ONGs, OAB, CNBB, Crea, pescadores, comunidades ribeirinhas e estudiosos avaliarem que a obra pode acabar com p rio, há alguns anos em estado precário.

Dom Cappio entende que, em 2005, o ministro Jaques Wagner se comportasse como enviado do presidente da República e defendesse o projeto federal. Mas agora, como governador, deveria representar o sentimento da população baiana, destaca o religioso. O frei já teve um contato inicial com o governador.

A polêmica na Bahia é tanta que a transposição foi citada durante o último Carnaval.

O Rio é nacional", declarou o governador baiano, defendendo mais a união do que os estados da bacia.

Jaques Wagner falou que vê uma ideologização do tema, mas, paradoxalmente, não apresentou argumentos técnicos.

"Essa obra vai acabar dividindo o Nordeste e eu quero a união da região", discursou.