Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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Com 84 anos de vida, boa parte deles destinados à academia e às causas sociais, e dezenas de livros publicados, Manoel Correia de Andrade, intelectual dos estudos agrários e da geopolítica brasileira, faleceu de parada cardiorespiratória, na madrugada de hoje, 22.

O pernambucano, natural de Vicência, foi reconhecido mundialmente pelas suas reflexões sobre a questão agrária, a formação econômica e geográfica do Brasil e sua preocupação com o homem do nordeste, que deu nome a sua mais conhecida obra: A Terra e o Homem no Nordeste. Por influência do pai, advogado e usineiro, formou-se em Direito e, por influência das contradições que vivenciou na usina onde nasceu e se criou, resolveu estudar História e Geografia e se dedicar às causas sociais. Foi professor de Geografia Econômica da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.

Andrade teve uma história de vida que se confundiu muitas vezes com a militância e é reconhecido pelos movimentos sociais de luta pela terra por ter sido sempre resistente e coerente. Esteve sempre ao lado das iniciativas mais progressistas em defesa da justa distribuição de terra e renda no campo. Escreveu sobre as diversas rebeliões pernambucanas, demonstrando sua admiração pelas formas mais fiéis de resistência e lutas sociais. Foi amigo de Francisco Julião e apoiador das Ligas Camponesas, teve como mestres pessoas como Caio Prado Jr e Josué de Castro, participou do primeiro governo de Miguel Arraes em Pernambuco, deposto pelo golpe de 64. Recentemente, o historiador e geógrafo foi homenageado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra pelas suas contribuições para o pensamento agrário.

Manoel Correia de Andrade sempre foi enfático ao afirmar que a questão agrária era um problema fundamental no Brasil e que se deveria pensar não em um, mas em vários projetos de reforma agrária, respeitando a diversidade cultural dos homens e mulheres do campo das diferentes regiões brasileiras. Andrade também se posicionou contra o projeto transposição do Rio São Francisco e, em entrevista ao jornalista José Correa Leite, do jornal Em Tempo, em 2000, apontou a insuficiência de água, o alto custo da empreitada - em um país de poucos recursos - e os desconhecidos impactos ecológicos que este projeto poderia causar como os principais problemas da transposição. O geógrafo ainda defendeu que fossem criadas estações de retorno das águas para as barragens, experiência já conhecida, ao invés de se fazer a transposição.

A morte de Andrade foi lamentada hoje por movimentos sociais. A Comissão Pastoral da Terra em declaração do Pe. Hermínio Canova, da Coordenação Nacional da CPT, lembrou que o legado de Andrade “enriqueceu não só a academia e a universidade, mas também a caminhada dos movimentos e as lutas sociais. Ele contribui com sua sabedoria e rigor científico para a luta do campo”. Em nota, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra se referiu a Andrade como “Um intelectual comprometido com seu povo que manteve, ao longo dos seus 84 anos, coerência com suas idéias e ideais”.

O corpo de Manoel Correia de Andrade será velado na Academia Pernambucana da Letras, da qual ele era membro, e será enterrado no Cemitério Parque das Flores.