Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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RIO - Fundador do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e coordenador do projeto Manuelzão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Apolo Heringer Lisboa vem desde 1997 lutando para conscientizar a população sobre assuntos ligados ao "Velho Chico". Apolo, que trabalha para promover a revitalização da bacia, diz que "o maior fracasso da história do Brasil foi a Transamazônica e com a transposição do rio São Francisco será a mesma coisa". Em entrevista concedida ao JB Online, o médico fala porque não defende a transposição do rio São Francisco.

O projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional é um empreendimento do Governo Federal, sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional, e está causando muita polêmica entre as comunidades ribeirinhas, professores e especialistas. O governo assegura que, em 2025, após 20 anos de obras, cerca de 12 milhões de habitantes do semi-árido nordestino contarão com a água. Hoje são 120 mil habitantes abastecidos por açudes de particulares de grande e pequeno porte, segundo dados do projeto Manuelzão.

Pensando nisso, Apolo Heringer apoiou a Caravana contra a transposição que já passou pelos Estados de Minas Gerais, Rio, São Paulo, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Sergipe, Bahia, Pernambuco, além do Distrito Federal. O grupo defende que se leve água ao semi-árido por meio de adutoras e não pela obra da transposição do Rio.

Heringer afirma ainda que no Nordeste não há falta d'água e sim um grave problema de gestão. Que a possível transposição do rio São Francisco só serve para beneficiar a indústria do agronegócio.

JB Online: Por que a Caravana é contra a transposição?

Apolo Heringer Lisboa: É uma questão história. A Caravana é contra porque a região da transposição é uma região que não precisa de água do São Francisco. O problema da seca no Nordeste e no Semi- árido brasileiro, que envolve toda a Bacia do São Francisco com aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, é a concentração de água das chuvas e a falta de distribuição das mesmas. A transposição irá tirar água um semi-árido para outro semi-árido, ou seja, do baixo São Francisco para Ceará e Paraíba.

O Ceará tem a metade da capacidade de água do que eu chamo de semi-árido setentrional (corresponde a Ceará, Paraíba, parte de Pernambuco, parte do Piauí, Rio grande do Norte e Ceará) com muitos açudes - são 70 mil açudes pequenos e 400 grandes - o que é equivalente, a capacidade de água, de 12 Baias da Guanabara. Essas águas estão paradas, sem distribuição.

O problema da seca no Nordeste, em todo semi-árido brasileiro – e estou falando inclusive do Jequitinhonha e do Vale do São Francisco - não é por falta d'água, é por concentração de água.

JB Online: Qual seria a melhor maneira de se distribuir água para o povo nordestino?

A. H. Lisboa: A melhor maneira e a mais barata de levar água para quem realmente precisa no Nordeste é distribuindo as águas dos açudes, das chuvas e construindo poços artesianos. Só é possível atender a população espalhada pelo Sertão construindo poços.

JB Online: Porque o Governo Federal adotou a projeto de transposição do rio São Francisco?

A. H. Lisboa: Existem duas lógicas perversas. A primeira é da indústria da seca que aproveita a miséria do povo. Nunca construíram um poço cartesiano, se o fizesse o povo ficaria independente. A indústria da seca ganha com a venda de água pelo caminhão pipa. Quando construíram os açudes achava-se que os açudes iam resolver o problema da seca no Nordeste. Pelo contrario, apenas resolveu os problemas dos proprietários de terras e dos políticos que fizeram açudes com dinheiro federal, em suas próprias terras.

A segunda lógica perversa é a das Multinacionais exportadoras de frutas e criador de camarão que consomem um grande volume de água. Por sua vez, o semi-árido esta adotando uma política econômica de uso intensivo de água doce. Mentiram para o povo brasileiro. Falaram que a água é para matar a sede do coitado do povo do sertão e na verdade nós descobrimos que quase toda ela é para o agronegócio que está desmatando quase todo o Cerrado.

O agronegócio vai piorar a situação da região, a indústria joga agrotóxico nos rios e o povo não pode chegar perto desse açude. Durante a viagem nos recebemos denúncias de moradores da Chapada do Apodi que relatavam que não tem acesso a água.

JB Online: A revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco irá resultar realmente no desenvolvimento sustentável da população local?

A. H. Lisboa: Não. Será subsídio cruzado, a população vai pagar mais caro pela água. O projeto trará para estados que não serão beneficiados com a transposição o subsídio cruzado. Ou seja, vai aumentar o preço da água mesmo em cidades que não fazem parte do projeto, porque alguém vai ter que custear o valor final que a água atingirá, cerca de R$ 0,11 pelo metro cúbico em alguns municípios.

JB Online: O senhor acredita que a transposição do Rio São Francisco não vai ser finalizada?

A. H. Lisboa: Esse projeto é perverso em todos sentidos, é como dizer que vai acabar com a fome do povo construindo um grande supermercado. Esses grandes canais da transposição não vão chegar a população pobre. A melhor solução vem do próprio Governo Federal, com uma proposta de fazer 530 obras com um custo de 3,6 bilhões de reais para atender do semi-árido brasileiro beneficiando 34 milhões de pessoas, em 9 estados. Não vai precisar da transposição, o projeto visa otimizar as águas das chuvas. Por isso, nós acreditamos que a Transposição do rio São Francisco não vai acontecer.

Tirando a água do rio eles vão impedir a produção de energia elétrica e agora, 6 anos depois da ameaça do apagão elétrico, o governo quer drenar 127 metros cúbicos, dizendo que tem água demais. Eles são loucos! Nunca vi a elite nordestina lutar tanto pelo oprimido. Eles são malandros!

A transposição não vai até o fim. O maior fracasso da historia do Brasil foi a Transamazônica, a transposição do rio São Francisco será também.

JORNAL DO BRASIL

Júlia Moura, Agência JB