Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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Governo promete revitalização das bacias, mas críticos ressaltam que gestão adequada das águas não será priorizada

O governo federal anuncia que destinará R$ 1,6 bilhões para ações de revitalização de bacias hidrográficas por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sendo R$ 270 milhões apenas para o rio São Francisco. No entanto, para os movimentos sociais, a proposta do Planalto não atinge o cerne da questão, já que trata de problemas isolados em vez de propor um projeto que discuta a bacia como um todo.

Tanto a bacia do São Francisco quanto as bacias “demandantes” da transposição vêm sendo utilizadas de maneira descontrolada. A poluição de suas águas ocorre pelo processo de desmatamento da mata ciliar na calha e nas nascentes, irrigação, despejo de esgoto domésticos, industriais e siderúrgicos, agrotóxicos e barragens, que geram uma situação de degradação e destruição acelerada. A população que sobrevive diretamente dessa água é a mais afetada.

Qualidade comprometida

Ambas as bacias precisariam de um projeto de revitalização, “e não de transposição”, apontam estudiosos. “Como vamos juntar essas águas?”, questiona a professora do Cefet Lúcia Ferreira Pereira. “As águas do São Francisco virão com qualidade comprometida, será uma transposição de ambientes e os impactos podem ser desastrosos. O problema é que não há estudos prevendo quais serão as conseqüências”, aponta.

A professora, que há 20 anos estuda a qualidade das águas no Ceará, afirma que o cenário que é de “total descaso com a população”. Segundo ela, os defensores do projeto querem convencer a população de que o povo será beneficiado, “quando a gente tem certeza de que apenas os grandes empreendimentos ganharão”, avalia. Lúcia cita relatos de trabalho em comunidades onde os porcos compartilham a água das fontes hídricas com o consumo humano, sem tratamento. “Há também a população que vive ao lado da barreira de Castanhão e não tem água”.

Capacidade hídrica

De acordo com a professora, os açudes do Semi-Árido são muito valiosos, mas estão passando por um processo de assoreamento muito grave. “Há estudos da universidade mostrando a imensa perda da capacidade hídrica anual dos reservatórios, mas isso não é colocado como uma ação importante dentro da gestão de águas do Estado. Se a preocupação é mesmo com a água, por que não se tem uma administração desses reservatórios?”, questiona. “A resposta só pode ser: porque se trata de um projeto de desenvolvimento com exclusão social”.

Para ela, a prioridade deveria ser o tratamento dessas águas, e não a transposição em detrimento da revitalização. “O rio Salgado que vai receber as águas da transposição é um rio de esgoto. Não existe preocupação em preservar essa água, mas sim em trazer a água alegando que é a solução do Semi-Árido”; finaliza.

Sem água e luz

Quem vive na pele o drama de ter grande quantidades de agua na vizinhança, mas ter dificuldade de acesso e problemas com qualidade é a família de Maria Marta da Silva. Ela vive com seus dez filhos mais o marido na comunidade Barro Preto, vizinha à barragem Armando Ribeiro, na cidade de Açu (RN).

A renda familiar vem da pesca e a agricultura é para subsistência. A família não tem água nem luz. Para consumo, há uma cisterna que foi construída no final de 2006, mas antes disso Dona Maria e sua família eram obrigados a beber a água do açude, que “é suja e cheia de lodo”.

Fonte: Brasil de Fato

Tatiana Merlino, de Jardim do Seridó (RN).