Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) outorgou o título de Doutor Honoris Causa ao monge em solenidade realizada no último dia 12 - Mariani Idalino

Qual a função das igrejas? Para o monge beneditino Marcelo Barros, é construir um mundo de justiça que não deponha contra a existência de Deus. O pensador, escritor e teólogo pernambucano foi agraciado com o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) no último dia 12. 

Ao longo dos 76 anos de vida, Marcelo costurou sua vocação espiritual com uma trajetória de defesa dos pobres, dos povos indígenas, das lutas sociais e de diálogo com outras doutrinas religiosas, não se acanhando de assumir um posicionamento político dentro da Igreja. Com 58 livros publicados e trabalhando na sua próxima obra, o monge conversou com o Brasil de Fato Pernambuco sobre religião, política, sua relação com Dom Helder Câmara e a recente homenagem que recebeu.

Doutor Honoris Causa

Quando soube da proposta dos professores Lusival Barcellos e Carlos André Cavalcanti, da UFPB, de outorga de Honoris Causa em seu nome, a reação inicial foi rejeitá-la. “No Brasil, quando você diz que alguém é doutor, você imediatamente está colocando a pessoa numa categoria social. Não tem jeito de dizer que Marcelo é uma pessoa pobre, é ligada aos pobres, e é doutor. Eu não quero ser de outra classe social, eu quero sempre ser da classe dos trabalhadores”, diz.


Solenidade contou com a participação de lideranças indígenas de Pernambuco e da Paraíba / Mariani Idalino

Foi quando ouviu dos professores que a concessão do título poderia ajudar a aproximar a universidade dos movimentos populares e povos indígenas que ele mudou de ideia. “Imediatamente, eu coloquei condições. Eu queria que o orador da solenidade fosse João Pedro Stédile. Ele foi o primeiro, depois Ivone Gerbara, teóloga comprometida com a luta das mulheres, e Gildo, do povo Xukuru, da Serra do Ororubá de Pesqueira (PE). Também convidei o cacique [Ednaldo dos Santos] do povo Tabajara, do litoral sul da Paraíba, para compor a mesa. Foi a primeira vez que um índio se sentou na mesa da reitoria de uma Universidade Federal do país. Foi a primeira vez que a bandeira do MST entrou naquela sala”, conta. Em seu discurso de agradecimento, dedicou a honraria aos lavradores de terra, aos povos originários indígenas e à população negra.

Lusival Barcellos, chefe do Departamento de Ciências das Religiões, destaca o trabalho de base realizado por Marcelo Barros e a teia de dimensões em que atua. “Ele tem conhecimento daquilo que fala e tem uma humildade e respeito no diálogo com as religiões, pessoas e movimentos, vislumbrando possibilidades de mudança, de as pessoas terem uma vida mais feliz e saudável, com razão do ser e do existir. Para isso, ele tem toda uma pedagogia da espiritualidade com a realidade social, econômica e política”, elogia.

Para Barcellos, a outorga do título vai na direção de fortalecimento da extensão da universidade. “Na sua ação, ele demonstra que a aproximação da universidade com os movimentos é possível”, ressalta.

Vocação e aproximação com Dom Hélder Câmara

A história de Marcelo Barros na religiosidade começou aos 18 anos, quando, em 1961, ingressou no Mosteiro de São Bento de Olinda, no Grande Recife - mesmo ano em que teve início o Concílio Vaticano II que reformaria a Igreja Católica. Em 1962, Dom Hélder Câmara era transferido do Rio de Janeiro e nomeado arcebispo de Olinda e Recife, e, em 1963, Marcelo era convidado a ser um de seus secretários e assessor para assuntos ecumênicos. A proximidade com o Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos, com quem tinha pelo menos uma conversa pessoal semanalmente, foi um processo que moldou a sua formação.

“Ele foi o primeiro grande mestre da minha vida. Ele me ajudou a compreender a questão social, a compreender a educação humanizadora, que completou muito minha formação no mosteiro, a qual devo minha instrução bíblica e teológica. Dom Hélder trouxe essa dimensão humana, social e aberta”, define Marcelo.

Foi em um contexto de ditadura militar que Marcelo deu início a sua caminhada como monge, em 1965. Relembrando o momento histórico que viveu, ele o relaciona com a postura política anticapitalista que sempre tomou.


Marcelo fala sobre Dom Hélder: “Ele foi o primeiro grande mestre da minha vida" / Reprodução

“A minha geração, dos anos 60, foi muito tocada e ferida pela falta de liberdade, por viver em um Brasil em que não havia democracia social. A gente sabe hoje que a ditadura militar brasileira foi praticamente financiada pelo poder do império dos Estados Unidos, claro que com um aliado muito forte que é essa elite escravagista brasileira que apoiou a ditadura e hoje apoia [o presidente Jair] Bolsonaro e sempre vai continuar apoiando”, afirma. “O capitalismo tem 500 anos, e, em formas diferentes, ele fez a escravidão negra, foi responsável pelo colonialismo, pela exploração dos indígenas e pelo extermínio dos povos originários das Américas. É o mesmo espírito, a mesma crueldade, a mesma desumanidade.”

Por tudo isso, para Marcelo, não é possível dissociar a missão da religião do combate à desigualdade social e da defesa dos pobres. “O fundamental para a fé é viver o amor. Mas não o amor como a gente fala na vida afetiva; é uma postura, é um modo de olhar a vida. O amor se expressa na solidariedade, na opção por transformar o mundo”, defende.

 “Deus é amor porque é justiça. Se Deus é Deus, não pode haver no mundo uma pessoa que gasta 100 mil dólares para passear pelo espaço e outra pessoa não ter um prato para comer. Se Deus existe, isso não pode ser assim. É muito importante que as religiões e todas as igrejas lutem para transformar esse mundo num mundo de justiça como testemunho de que Deus é Deus. Se a gente vive num mundo em que a pobreza tem aumentado quatro vezes mais, a desigualdade social é cada dia maior, e a violência do capitalismo é tão desumana, isso depõe contra Deus.”

A esquerda não é maioria na Igreja Católica, conta ele. “Dom Hélder dizia que é uma minoria abraâmica - impotente, pobre, mas com uma energia muito grande no amor e no querer. Mas essa minoria fez a teologia da libertação, conseguiu algumas conquistas e se sente apoiada pelo Papa Francisco e pelo Conselho Mundial de Igrejas, sabendo que é uma luta permanente”, revela.

Espiritualidade e compromisso Revolucionário

Os caminhos como monge em determinado momento se entrelaçaram com os movimentos sociais. Marcelo Barros testemunhou o nascimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e foi, inclusive, detido na primeira ocupação, em Ronda Alta, no Rio Grande do Sul, na década de 80.

Sua relação com a questão agrária começou em 1976, quando foi chamado para ir a um pequeno mosteiro beneditino que estava em crise na região rural próxima a Curitiba, no Paraná. “Ali eu tive o primeiro contato com o que começou a se chamar naquela época Pastoral da Terra, que era trabalho da igreja com os lavradores. Em 77, aquela comunidade  se transferiu para Goiás Velha, e era a sede deste trabalho da igreja dos lavradores do país”, contextualiza.

Ele trabalhou com a Pastoral da Terra até 1990, ao lado do economista e dirigente do MST João Pedro Stédile. “Eu estava na assembleia da Pastoral da Terra em 1983 quando se conversou e foi anunciado que os lavradores estavam formando um movimento autônomo que não era da Igreja, que era de lavradores, mas que a gente iria apoiar, que era o MST.” A vivência com o MST foi, como define, mais uma lição de “ir juntando fé com vida, espiritualidade com compromisso revolucionário”.  

Integração com outras religiões

Ainda que a entrada no mosteiro só tenha acontecido na maioridade, Marcelo Barros já contemplava sobre as dimensões da religiosidade mesmo quando era criança e sonhava em ser veterinário de animais silvestres, no município de Camaragibe, no Grande Recife. É o que chama de vocação.

Quando o pai, operário de fábrica católico, o levava para cortar cabelo no barbeiro que era pentecostal, ele assistia, sentado sobre uma caixa para que o cabeleireiro o alcançasse, aos dois velhos amigos brigarem por conta da religião. “Aquilo me dava uma sensação ruim, de que Deus que é amor estava provocando a divisão de companheiros. Eu cresci um pouco com essa inquietude”, rememora.

Quando passou a auxiliar a Arquidiocese de Olinda e Recife no diálogo com as outras religiões, nos anos 60, a temática voltava a sua mente e se materializava no fazer prático. Foi mais uma etapa do processo que o aproximou das outras doutrinas. 

“O que é religião? Acredito que é uma forma humana e cultural de responder ao amor divino. É como se Deus dissesse ‘Eu te amo’, e cada um respondesse na sua língua. Claro que, ao responder cada um em sua cultura, há diferenças nessa resposta. Uns sublinham mais a meditação, outros dão mais importâncias ao culto, outros se preocupam mais com a interioridade ou com a dança. O que importante nelas não é a exterioridade, o rito; o que importante nelas é o espírito. É o que a gente chama de mística - o viver, a motivação fundamental. Essa espiritualidade não é apenas cristã, é humana”, conclui.


Fonte: Brasil de Fato
Edição: Vanessa Gonzaga