Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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Artigo de José  Carlos da  Silva Lima

Terra a vista! Este grito vindo das caravelas de Cabral pode ser entendido de duas formas distintas: a primeira, no sentido de enxergar o continente, de avistar a terra a ser conquistada, e a segunda, em transformar a terra, que era um bem comum , em mercadoria, em propriedade privada.

Em torno da terra foi criada uma ideologia de poder. A premissa de que terra e poder andam lado a lado gerou a seguinte máxima: “quem tem terra tem poder”.

Logo, se fez necessário criar mecanismos políticos e jurídicos que perpetuem essa lógica, impedindo aos que vivem à margem do poder (terra) de conquistarem um pedaço de terra (poder).

A ideologia criou uma pseudo naturalidade nesta situação moldada na Colônia e atualíssima que é a detenção de grandes extensões de terras nas mãos de poucos grupos familiares, no caso de Alagoas, cerca de 20 famílias detêm as terras.

O arcabouço montado não consegue garantir que em determinado momentos esta couraça seja violada pelos marginais do sistema, assim aconteceu na experiência do Quilombo dos Palmares por liberdade e território e, na Guerra dos Cabanos, ocorrida no Litoral Norte de Alagoas.

Esses levantes organizados explicitam o conflito e questionam o modelo político e de produção.

O movimento que se desloca da margem ao centro, logo é tratado como um risco à ordem, sendo reprimido com violência. A vida humana perde espaço para as cercas de arame, os canaviais e a criação bovina.

Neste contexto histórico e conflituoso encontramos o sem-terra – resultado da política agrária.

Quando organizado em movimentos, torna-se sujeito e recusa permanecer à margem.

As estratégias para conquistar a terra passam pelas ocupações dos imóveis rurais, por marchas, romarias, caminhadas, ocupações de órgãos governamentais, jejuns, audiências, feiras agroecológicas e bloqueios de rodovias.

As ocupações de imóveis rurais e os bloqueios das rodovias são estratégias de enfrentamento que denunciam a morosidade dos governos em realizar a reforma agrária e as péssimas condições em que vivem as famílias acampadas e assentadas.

Sem respostas concretas para resolver a questão agrária, o Estado e os fazendeiros apelam para o direito de propriedade e o de ir e vir. Transformam uma reivindicação justa em crime, e as causas em consequências.

A estratégia dos bloqueios não é exclusividade dos movimentos sociais do campo; as comunidades ameaçadas utilizam desta ação para denunciar a violência no trânsito, o transporte que não atende às necessidades, as escolas fechadas, os assassinatos, as prisões ilegais...
Os bloqueios atormentam os governos e as autoridades porque denunciam as suas políticas que negam o conflito e se recusam a sanar a dívida social no campo e na cidade.

 

José Carlos da Silva Lima é historiador e Coordenador da Comissão Pastoral da Terra Nordeste 2