Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

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A morte do líder comunitário causou comoção entre movimentos sociais e organizações populares. Zé Maria era a principal liderança das populações atingidas por grandes projetos de irrigação na região. Patrícia Benvenuti
 
Da Redação
 
 
 
A violência no campo fez mais uma vítima no Vale do Jaguaribe, área irrigada pelo eixo norte do projeto de transposição do Rio São Francisco, no Ceará. Na quarta-feira (21), foi assassinado em Limoeiro do Norte o líder comunitário José Maria Filho, de 44 anos.
 
O agricultor e comerciante foi executado com 19 tiros de pistola na estrada que liga Limoeiro do Norte à sua comunidade, Sítio do Tomé, localizada entre o município e Quixeré.
 
Zé Maria, como ficou conhecido, era presidente da Associação Comunitária São João do Tomé e da Associação dos DesapropriadosTrabalhadores Rurais Sem Terra - Chapada do Apodi.
 
 
Motivação política
 
A morte do líder comunitário causou comoção entre movimentos sociais e organizações populares no Vale do Jaguaribe.
 
De acordo com Pe. Junior, da Diocese de Limoeiro do Norte, Zé Maria era a principal liderança das populações atingidas por grandes projetos de irrigação na região, o que reforça a hipótese de motivação política para o crime.
 
 "Ninguém pode dizer quem matou ou quem mandou matar, mas não se pode olhar para isso sem pensar nos conflitos que existem na região", afirma.
 
Frequentemente, Zé Maria fazia denúncias ao Ministério Público e em meios de comunicação locais sobre as conseqüências dos projetos. Uma de suas principais denúncias estava relacionada à contaminação da água pelo uso de agrotóxicos, difundidos por meio de pulverização aérea.
 
O uso indiscriminado de agrotóxicos causou a contaminação da água consumida por comunidades como Sítio do Tomé e foi responsável também pela morte de muitos trabalhadores nas lavouras. "Está sendo jogado veneno na cabeça do povo há dez anos", frisa o padre.
 
Desde o ano passado, segundo ele, Zé Maria comentava com amigos que vinha sofrendo ameaças de morte.
 
Neste ano, o líder comunitário chegou a registrar um Boletim de Ocorrência (BO) depois de tentar fotografar um avião usado na pulverização de agrotóxicos e de discutir com o segurança de uma propriedade.
 
 
Interesses
 
O Vale do Jaguaribe conta hoje com um dos maiores projetos de fruticultura irrigada do Ceará, com participação, inclusive, de empresas transnacionais.
 
De acordo com padre Junior, a chegada desses projetos a partir da década de 1990 intensificou os conflitos por terra e água na região, que ainda registra muitas mortes, sobretudo nas zonas rurais. No entanto, a maioria dos casos nem chegam a ser divulgados. "As pessoas têm medo até de falar", explica o padre.
 
Com a chamada modernização da economia do Ceará, mais recursos estão destinados à região, concentrados em grandes obras. Entre elas
destacam-se, além dos projetos de irrigação, as barragens do Castanhão e Figueiredo, a criação de camarão em cativeiro e a instalação de um parque eólico no litoral.
 
Os interesses sobre a Chapada do Apodi também estão relacionados às obras de transposição do rio São Francisco, na medida em que a região deverá receber suas águas. O projeto, que integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, promete levar água para 12 milhões de pessoas no Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.
 
Para o engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna, no entanto, as obras não trarão benefícios para a população. "Essa água da transposição não vai ser usada para fins de abastecimento, e sim para fins de agronegócio".
 
 
 
Investigações
 
As investigações sobre a morte de Zé Maria estão sendo acompanhadas pela Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap) e por movimentos sociais da região. Além disso, o secretário de segurança de Limoeiro do Norte já teria designado uma equipe para acompanhar o caso.
 
As organizações devem propor, a partir de agora, a federalização do crime, a fim de que apressar a elucidação do caso. Para o padre Junior, porém, é preciso também somar esforços para solucionar os impasses no Vale do Jaguaribe.
 
"Vamos continuar pressionando para que avancem as investigações, mas é fundamental que se enfrentem os conflitos que levaram ao assassinato de Zé Maria", ressalta.
 
Na quinta-feira (22), entidades como a Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgaram uma nota em repúdio ao assassinato do trabalhador. Para as organizações, "muitos foram os/as companheiros/as que tombaram vítimas da expansão do agronegócio, da ganância desenfreada dos senhores do capital e da virulência social dos poderosos".
 

fonte: Brasil de Fato