Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Com o tema “Romper as cercas do capital e tecer as teias do Bem Viver na Casa Comum: Somos Terra, Somos Água, Somos Vida”, começou na manhã desta terça-feira, 03 de março, a 31ª Assembleia Estadual da Comissão Pastoral da Terra de Alagoas. A atividade reúne, até quinta-feira, 05, camponeses e camponesas acompanhados pela instituição no estado para discutir a situação do país, alinhar as prioridades e as ações de luta durante o ano de 2020.


A CPT Alagoas escolheu adaptar para sua assembleia o tema do V Congresso Nacional da CPT, a ser realizado em julho deste ano no município de Marabá, no Pará, como forma de começar a preparação para o evento. O congresso busca ser a expressão viva do encontro dos povos do campo, das águas e das florestas, a quem a Pastoral da Terra serve e estimula o protagonismo. Ele pretende traçar os caminhos que os camponeses apontam para reafirmar a presença e a missão da CPT.

Marcaram presença na abertura o indígena Xukuru Kariri Cássio; Damiana Aleixo, representando o MLST; Edicleide Rocha, do Movimento de Mulheres Camponesas; Maria Aparecida, mais conhecida como Nena, das Cáritas Brasileira; os professores Cícero Albuquerque e Lucas Lima; Zennus Dinys, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi); e o bispo da Diocese de Palmeira dos Índios, Dom Manoel Oliveira Soares Filho, além dos camponeses e camponesas.Na abertura oficial da assembleia, pela manhã, novos e antigos parceiros da CPT Alagoas saudaram os participantes que vieram dos acampamentos e assentamentos do sertão, do litoral e da zona da mata alagoana. O tom das falas foi de resistência e esperança para enfrentar o cenário de crise política que o Brasil passa, marcado por retrocessos de direitos e grandes desafios para os movimentos sociais, populares, sindicatos e todos aqueles que lutam por vida digna.

Dom Manoel fez a leitura do texto número 188 do livro “A alegria do Evangelho”, primeira exortação apostólica pós-Sinodal escrita pelo Papa Francisco. No documento, o pontífice cita que ‘A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas forças’. A partir daí, aborda o sentido da solidariedade: “Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra solidariedade significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todas sobre a apropriação dos bens por parte de alguns”. Com essa reflexão, o bispo abençoou a assembleia.

A luta indígena foi destaque na mesa de abertura nas falas dos representantes dos povos Xukurus Kariris e do Cimi. Nesta mesma perspectiva contrária à lógica que coloca a mercadoria acima da vida, a companheira das Cáritas, Nena, defendeu que é preciso voltar às origens da agricultura camponesa. “O camponês precisa enxergar a terra como um meio de produzir para sua sobrevivência e não para o mercado”, disse.

Após as saudações, houve a entrega dos certificados de resistência em 2019 para os acampamentos Bota Velha e Santa Cruz, situados em Murici. Ambas áreas estão ocupadas há 20 anos e, no ano passado, resistiram a mais ameaças de despejo.Cássio, fez a denúncia do crescimento do capital financeiro nos territórios indígenas. Ele também aproveitou a oportunidade para criticar a teoria do "marco temporal", que vem sendo aplicada para anular demarcações. A ideia exige a presença dos índios na área objeto da demarcação no dia 5 de outubro de 1988 para que sejam reconhecidos seus direitos originários. Isso deixa milhares de indígenas e suas comunidades desamparadas, aumentando, consequentemente, os conflitos no campo. Já Zennus homenageou a líder Raquel Xukuru Kariri, que faleceu em 2018, e abordou a questão do genocídio indígena, trazendo a simbologia de que o indígena não morre, torna-se uma semente de resistência.

O prêmio Dom Hélder Câmara – criado pela CPT/AL no sentido de reconhecer aqueles que têm contribuído com a luta pela terra no estado – foi entregue ao professor universitário Lucas Gama Lima.

 

Prêmio Dom Hélder Câmara é concedido a professor da Ufal

Em seus artigos científicos, o homenageado aborda o uso excessivo de agrotóxicos em Alagoas como parte da violência no campo e a resistência dos camponeses e camponesas e sua atuação na preservação das sementes crioulas frente ao crescente processo de inserção de sementes transgênicas do semiárido do estado. Além disso, o professor também desenvolve pesquisa sobre a emergência de etnias indígenas no estado de Alagoas e o processo desencadeado de lutas.Neste ano de 2020, a 31ª Assembleia Estadual da CPT/AL homenageia um professor que possui trabalhos acadêmicos que contribuem com a luta das famílias camponesas e indígenas por terra e território, soberania alimentar, dignidade e em defesa da vida.

Junto a outros pesquisadores e pesquisadoras, o companheiro também analisa o monocultivo da cana-de-açúcar e sua transição em curso para o monocultivo do eucalipto, o que considera duas faces de uma mesma tragédia. São apresentados dados e números oficiais que, em outras palavras, deixa claro: trocar a cana por eucalipto só favorece às oligarquias locais que seguem no poder, mas em nada contribui para melhorar a vida do povo empobrecido e, ainda, pode piorar o quadro da fome. Isso porque por aqui cada dia menos se planta alimento para plantar o que não se come.

Quase metade da população de Alagoas está abaixo da linha de pobreza, segundo o IBGE. Por outro lado, o estado ocupa o penúltimo lugar na área plantada e na produção de feijão no nordeste e o último e penúltimo lugar em área plantada e produção de milho.

O assentamento Flor do Bosque, localizado em Messias, é citado como exemplo de caso em que os moradores e moradoras enfrentam as consequências da substituição da cana-de-açúcar pelo eucalipto nas terras ao redor, pertencentes ao grupo Carlos Lyra, que integra a empresa Caetex com a Duratex. As pulverizações aéreas de agrotóxicos realizadas nos primeiros anos do plantio do eucalipto causaram a perda de frutas e hortaliças, além de prejudicar a saúde das famílias que ali vivem.

O homenageado conclui: “Acrescenta-se que a expansão do eucalipto na Mesorregião Leste além de ocupar as terras mais férteis do estado e se apropriar de importantes mananciais de água, acarreta dificuldades para as pequenas propriedades e assentados de reforma agrária, como os camponeses do Flor do Bosque, vitimados pela deriva de agrotóxicos de um vizinho indesejado. Assim, avaliamos que a recente instalação do complexo madeira papel-celulose no campo alagoano recrudesce as contradições da apropriação capitalista da terra e sinaliza uma iminente/eminente tragédia”.

O homenageado é doutor em Geografia pela UFS. Docente Adjunto I do Curso de Geografia do Campus do Sertão da UFAL e coordena o Observatório de Estudos sobre as Lutas por Terra e Território (OBELUTTE/GEPAR/UFAL).

A CPT/AL reconhece o seu trabalho e confere a Lucas Gama Lima o prêmio Dom Hélder Câmara pelo apoio às famílias camponesas. 

 

 

 

Lara Tapety - Ascom CPT/AL