Apesar da redução no número de conflitos em relação ao ano anterior, a violência agrária segue concentrada em áreas históricas de disputa pela terra.

Em 2025, Alagoas registrou 34 conflitos no campo, envolvendo disputas por terra e água. O número representa uma redução de 15% em relação ao ano anterior, quando foram contabilizadas 40 ocorrências. Também houve queda expressiva no total de pessoas afetadas, que passou de 24.472 para 11.732, uma diminuição de aproximadamente 52%. Os dados integram a 40ª edição da publicação Conflitos no Campo Brasil, elaborada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Embora os indicadores apontem para uma redução quantitativa dos conflitos, o levantamento demonstra que as tensões estruturais permanecem presentes em diversas regiões do estado. A disputa pela terra se mantém como o principal eixo dos conflitos agrários em Alagoas, atingindo acampamentos, comunidades quilombolas, territórios indígenas e áreas ocupadas por famílias posseiras. Nesse cenário, conflitos históricos, como o das áreas da antiga Usina Laginha, em União dos Palmares, continuam sendo símbolos da permanência das disputas fundiárias no estado.
Conflitos por terra continuam predominando
Assim como nos anos anteriores, os conflitos por terra concentraram a maior parte das ocorrências registradas em Alagoas. Em 2025, foram contabilizados 32 conflitos, contra 34 em 2024, uma redução de 5,9%.
A queda mais significativa ocorreu no número de famílias envolvidas, que passou de 5.799 para 2.889, representando uma diminuição de aproximadamente 50,2%. Ainda assim, a permanência de dezenas de conflitos evidencia que a questão fundiária continua sendo o principal foco das disputas no estado.
A distribuição territorial também revela que os conflitos permanecem concentrados em regiões historicamente marcadas pela luta pela terra. A Zona da Mata segue reunindo o maior número de ocorrências, impulsionada principalmente pelos conflitos em União dos Palmares, município que continua concentrando disputas relacionadas à antiga Usina Laginha.
União dos Palmares permanece como principal foco da disputa fundiária
União dos Palmares voltou a concentrar o maior número de conflitos registrados em Alagoas. Permanecem no levantamento áreas como os acampamentos Sapucaia, Boa Vista, Nova Canaã, Jaelson Melquíades e Caipê II, evidenciando que o impasse fundiário envolvendo as terras da antiga Usina Laginha continua sem solução definitiva.

A permanência desses conflitos evidencia que o impasse envolvendo as terras da antiga Usina Laginha segue sem solução. No último dia 06 de julho de 2026, movimentos do campo voltaram a se mobilizar em Maceió contra a ameaça de despejo de aproximadamente cinco mil famílias que vivem nas áreas das usinas Laginha e Guaxuma, cobrando o cumprimento do acordo firmado em 2016 para a destinação dessas terras à Reforma Agrária Popular.
Arapiraca passa a ocupar posição de destaque
Outra mudança importante observada em 2025 foi o crescimento da participação de Arapiraca nos registros de conflitos por terra.
O município aparece com destaque em conflitos envolvendo a Comunidade Bananeira e o Acampamento Papa Francisco, na Fazenda Laranjal, reunindo centenas de famílias Sem Terra. No levantamento de 2024, Arapiraca figurava apenas entre os municípios onde ocorreram casos de trabalho escravo rural.
Mudança no perfil das categorias sociais afetadas
O perfil das populações atingidas também apresentou mudanças em relação ao ano anterior.
Em 2025, os principais grupos envolvidos nos conflitos foram trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, comunidades quilombolas, povos indígenas, posseiros e pescadores.
Os conflitos envolvendo famílias Sem Terra passaram a representar a maior parte das ocorrências registradas, especialmente em Arapiraca, São Sebastião, Flexeiras e Murici. Já os povos indígenas, embora continuem entre as categorias mais atingidas, apresentaram redução significativa no número de famílias afetadas.
A Terra Indígena Kariri-Xokó, localizada entre Porto Real do Colégio e São Brás, permanece entre os principais territórios em conflito. Entretanto, o número de famílias registradas caiu de aproximadamente quatro mil em 2024 para 875 em 2025. Também seguem sendo registrados conflitos envolvendo o povo Xucuru-Kariri, em Palmeira dos Índios.
Conflitos pela água diminuem, mas continuam atingindo comunidades tradicionais
Os conflitos pela água também apresentaram redução em 2025. Foram registradas duas ocorrências, contra três no ano anterior, enquanto o número de famílias afetadas caiu de 317 para 44, uma redução de aproximadamente 86%.
Apesar da diminuição, os conflitos continuam afetando comunidades tradicionais. Enquanto, em 2024, predominavam denúncias relacionadas à destruição, poluição e descumprimento de procedimentos legais, em 2025 os principais registros envolvem restrições de acesso à água em comunidades quilombolas de Piaçabuçu, Igreja Nova e Santana do Mundaú, além de um conflito envolvendo pescadores na Barra de Santo Antônio.
Trabalho escravo deixa de ser registrado em 2025
Outro dado que chama atenção é a ausência de registros de trabalho escravo rural em Alagoas durante 2025.
No ano anterior, haviam sido identificadas três ocorrências, com oito trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão nos municípios de Arapiraca, Murici e Traipu, em atividades ligadas à pecuária e à extração de granito.
A ausência de registros em 2025 representa uma mudança importante no levantamento. Entretanto, esse dado deve ser interpretado com cautela, considerando que fatores como a intensidade das fiscalizações e a capacidade de denúncia também influenciam a identificação desse tipo de violação.
Conflitos persistem apesar da redução dos indicadores
A redução observada entre 2024 e 2025 indica um recuo no número de ocorrências e de pessoas afetadas pelos conflitos no campo em Alagoas. Ainda assim, o levantamento demonstra que permanecem ativos conflitos históricos relacionados à reforma agrária, à garantia dos territórios indígenas e quilombolas e ao acesso à água.
A permanência desses conflitos evidencia que as principais causas estruturais da violência no campo seguem presentes, mantendo comunidades camponesas, povos tradicionais e trabalhadores rurais em permanente situação de disputa por direitos e territórios.
Fotos: MST
