Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

O conflito na Fazenda Gurugi, localizada no município do Conde, estado da Paraíba, teve início em 1982 quando o então proprietário Nelson Pimentel arrendou o imóvel para o senhor conhecido como Zequinha. O novo rendeiro, com o apoio do prefeito do município, Aluisio Régis, passou a intimidar e destruir as roças das cerca de 90 famílias que viviam e plantavam no local - em regime de cambão - há mais de cem anos. A comunidade, então, decidiu denunciar a ação do rendeiro e pedir apoio ao então Padre da Paróquia, Frei Domingos, que, por sua vez, procurou o apoio da Pastoral Rural através de Frei Anastácio. Em 1988, o conflito se acirrou quando o rendeiro, ao destruir com trator a lavoura das famílias, deparou-se com a resistência e a reação da comunidade organizada. Para impedir a organização dos camponeses e camponesas, o rendeiro decidiu contratar capangas que, além de intimidarem e amedrontarem as famílias, destruíram a Capela de São Sebastião, padroeiro da comunidade. Esse crime indignou ainda mais as famílias que tinham muita devoção por São Sebastião, pois a Capela era um lugar sagrado de encontros e celebrações na comunidade. Outro crime, desta vez ainda mais perverso e brutal, ocorreu no dia 28 de dezembro de 1988. O fazendeiro arrendatário mandou matar uma das lideranças da comunidade, o camponês José Avelino. Naquele dia, Zé de Lela, como era conhecido na comunidade, havia chegado de uma reunião em João Pessoa com outros camponeses, jantou por volta das 18h e sentou-se em frente ao portão do seu casebre quando foi alvejado por um tiro de espingarda calibre 12. José Avelino morreu no local com um tiro em sua cabeça, deixando esposa e dez filhos, todos menores de idade. Indignadas e revoltadas, as famílias decidiram não se abater e realizaram muitos mutirões para ampliar o plantio de lavouras, organizaram mobilizações e protestos na cidade de João Pessoa e do Conde para divulgar a violência da qual estavam sendo vítimas. As famílias denunciaram também a perseguição que vinham sofrendo do prefeito municipal, Aluisio Régis, aliado do fazendeiro. Três meses após o assassinato do camponês Zé de Lela, mais precisamente no dia 30 de março de 1989, um dos capangas da fazenda, Severino Mariano, conhecido por Biu Mariano, atropelou um grupo de camponeses que estava em frente ao Fórum do município de Alhandra para participar da audiência sobre o assassinato do trabalhador rural. Na ocasião, 28 pessoas ficaram feridas e uma camponesa, Severina Rodrigues, conhecida como Dona Bila, foi morta. Nove anos depois Severino Mariano foi condenado em Júri popular. Já o assassino de Zé de Lela foi absolvido. Toda a realidade de violência extrema levou as famílias a pressionarem o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a desapropriar o imóvel para fins de reforma agrária. Em 02 de maio de 1988, a área foi desapropriada, porém, o decreto desapropriatório ficou seis meses suspenso em decorrência de uma ação impetrada na Justiça pelo proprietário. No dia 16 de maio de 1994, a Justiça finalmente determina a imissão de posse ao Incra. As 78 famílias do assentamento denominado Gurugi 2 conquistaram a construção de suas casas através do Programa Nacional de Reforma Agrária e, também, já acessaram créditos de apoio à produção como Pronaf e Procera. A comunidade tem uma casa de farinha, um trator, um caminhão F.4000 e está concluindo a construção da sede comunitária. As mulheres do assentamento organizaram um grupo com o objetivo de beneficiar a produção de alimentos e conseguiram construir uma cozinha comunitária.