Comissão Pastoral da Terra Nordeste II

Aproximadamente 300 famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra, organizadas com o apoio da CPT, ocuparam em fevereiro de 1997 as terras da Usina Santa Tereza, localizada no município de Tracunhaém, zona da mata de Pernambuco. Com a ocupação, as famílias reivindicavam ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que atuasse para desapropriar a área para fins de Reforma Agrária. A propriedade pertencia ao grupo João Santos, que há mais de 90 anos controlava as atividades canavieiras na zona da mata norte do estado. Além do setor sucroalcooleiro, o Grupo diversificou suas atividades econômicas, sendo também um dos maiores fabricantes de cimento do Brasil - Cimento Nassau, além de deter concessão de meios de comunicação. Com a ocupação, os trabalhadores e trabalhadoras sem-terra passaram a vivenciar um dos mais prolongados e violentos conflitos por terra na região. As famílias se tornaram vítimas de inúmeros casos de violências: sofreram vários despejos violentos, ameaças, perseguições, destruição das casas e lavouras, que ocorriam como forma de intimidar e combater a resistência dos trabalhadores e trabalhadoras. Em 2003, o conflito foi intensificado a partir de uma maior presença do Estado e de milícias privadas do Grupo João Santos no processo de repressão aos sem-terra. Tal situação gerou muitos episódios de violência que tornaram o caso preocupação de organismos nacionais e internacionais de Direitos Humanos, além de terem sido sistematicamente pautados pelos meios de comunicação social locais e nacionais. Mesmo diante de tantas dificuldades e violências vividas durante o conflito com a Usina Santa Teresa, as famílias guerreiras do Prado seguiram firmes em seu propósito de ver a terra partilhada. Organizados, as famílias conseguiram dar visibilidade às violências, ampliar o apoio com diversas entidades e com a sociedade de modo geral, realizaram mutirões, marchas, acampamentos no Recife e em Brasília, protestos, entre outras iniciativas de resistências. Após anos de luta, uma parte da área reivindicada foi desapropriada em 2003, dando origem ao assentamento Nova Canaã, que contemplou parte das famílias acampadas. As demais continuaram resistindo até que finalmente em 2005 foram assentadas. Nas terras pertencentes ao grupo João Santos, onde antes só havia cana-de-açúcar e devastação ambiental, hoje é possível encontrar uma produção diversificada de alimentos produzidos de forma saudável: inhame, macaxeira, jerimum, batata, feijão, milho, frutas, plantas medicinais e produção de animais de pequeno porte. As famílias do Engenho Prado são uma inspiração e referência de luta pela terra no estado e até hoje partilham sua experiência de lutas Pernambuco a fora.